sexta-feira, 7 de agosto de 2009

QUASE VERSOS

(mirror-puzzle)
Meus versos não são versos
Não tem linha nem formato
Nem prosa, quase sem rima
São impressões de vida

Jogo palavras nas frases
E delas me possuo
Ou sou possuída
E elas me revelam

Brinco com a frase
São códigos da alma
Inspirados na vida
Alguns decifram

Gosto desse jogo com as palavras
Revelo segredos decifráveis
Sem forma nem rima
Tem gente que odeia isso

Vou brincando com elas
Quebra-cabeças que nunca se encaixam
Porque a vida não termina na palavra
As peças continuam mudando a forma

Vou continuar insinuando frases
Formando versos inversos
A rima busco com a vida
Sou feliz assim

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terça-feira, 4 de agosto de 2009

VIAGEM À LUZ DE VELAS

Olhando pra fumaça desvairada que sai do meu cigarro, pensando em ti.
Imaginando se estás com a outra ou se comigo no pensamento.
Sozinha no meu quarto escuro a vela trepida e dança na parede quase branca. E o vento frio que entra da janela corta um suspiro que de saudade me inspira. Fica mais silêncio ainda sem luz. A escuridão do pátio me assusta e a lua crescente me fascina e alivia. Sinto um medo quase nostálgico de estar aqui sozinha. Acendo outro cigarro que me faz companhia.
Agora ouço vozes no pátio do vizinho, surpreendido pela escuridão. Eu não.
Uso a lanterna que ilumina as letras que aqui escorrem e aguardo. Talvez com ela estivesse na TV, sem enxergar a fumaça do cigarro, sem escrever. Que bom que não tem luz. O fogo do isqueiro quase queimou meu cabelo, sem noção de distância entre a boca e o cigarro.
Olha! Os vizinhos saíram pra rua como se vissem agora. Também não entendem a escuridão. Eu prefiro esboçar aqui com meus rabiscos a trajetória da fumaça. Uma graça. Quase faltando pilha na lanterna, tento imaginar se consigo escrever com a luz da vela. Trépida.
E acho a boca com o cigarro. Baforadas de silêncio. Escuto a falta de luz pensando em mim, em ti. Pena não estar aqui.
É diferente quando a luz se apaga sem pedir licença. Assusta, surpreende os sentidos. Amedronta a razão. Fica sem chão, quase cega. Por um momento pensei: é rapidamente elétrico o que acontece. A falta da luz.
Continuo olhando a TV sem movimento ou trançando os polegares pra ver se o tempo passa, ele passa. Agora dá vontade de continuar lendo meu livro de novo. A vela tá quase acabando, tenho que achar outra.
É silencioso demais ficar sem luz. Nem a da lua tem, só da vela acabando e a do cigarro. Ah, esta lanterninha tá me guiando.
A da vela faz contornos diferentes nas paredes. Contornos que nunca observo no meu quarto. Pensamentos que não me permito invadem esta penumbra. É outro ângulo de luz.
E as sombras dos móveis escorrem parede acima enquanto a vela diminui. Vultos imóveis que crescem. Fui permitindo que a vela se acabasse pra conhecer um pouco mais as sombras deste quarto. O silêncio estava insuportável e a escuridão abominável.
A vela era quase uma chama extinta, fui deixando. Queria ver até onde iria o silêncio do medo do meu quarto. Até onde as sombras me engoliam e se confundiam com a minha.
Outro cigarro, fumo mais no escuro. Seja por mais um ponto de luz. Seja a companhia, idiota. Seja a aflição de fazer qualquer coisa além de escrever enquanto não volta a luz.
Já nem é mais vela, é cotoco. Tá quase iluminando menos que o cigarro. Continuo deixando. Talvez supere o medo do escuro, do sozinho.
Eba!! Voltou a luz. Vou deixar a vela acesa mesmo assim.
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sábado, 1 de agosto de 2009

RINDO DO MUNDO (nº 1)

Quem disse que não rio do mundo??
Rio. E mudo o curso. Uma pessoa que escreveu sobre todos esses sentimentos aqui descritos tem que rir, e muito, pois viveu todos eles. Quantos jamais experimentaram estas emoções. Ou morreram cedo demais, ou nem viveram.
Tenho muita sorte. Angústias, amores perdidos, traumas, decepções, frustrações e perdas. Feliz, que as tive.
Dou gaitadas por ter amado o amor errado, mas também amei o amor certo pois durou um tempo, o necessário pra saber que amei. E mais ainda, fui amada. Como não sorrir. Houve troca de amores.
Como não rir das frustrações, as tive e ainda vou tê-las. Se as tive é porque tentei algo diferente. Se frustrei, não era esse o caminho. Tentarei outro então.
Decepções são inerentes. Elas existem, talvez eu tenha esperado aquilo que não podiam me dar. Talvez eu tenha dado menos que mereciam. O esperado pode ser diferente daquilo que dou.
Ah, os traumas. Quem não os teve. Uns em menor escala que outros, mas sempre existem. Depende de como os suportamos e convivemos com eles. Sabem quando dou risada deles? Quando vejo os traumas dos outros. Um abuso atrás do outro.
Perdas são perdas porque ganhos tivemos. E quando as perdemos, não somos suficientemente corajosos pra dizermos o quanto fomos egoístas. Porque elas dormem com a gente. Não era esse nosso plano. Eterno só na mente.
E a angústia, essa dói no peito, já o riso dói na barriga. Que briga. Ansiedade causa angústia. Surto de tanto rir, melhor que seja assim. Acho graça agora, porque embora tenha mesmo surtado tive sorte de ser quem sou.
Então, por ter sido tudo isso e mais um pouco. Ter morrido de amores. Ter tido decepções, frustrações, traumas inevitáveis e perdas irreparáveis, tenho que rir muito desta vida...por quê?
Porque simplesmente vivo.


E isso é um puta motivo pra gargalhar......e muito!!!
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terça-feira, 21 de julho de 2009

SÓ UMA PALAVRINHA

Tenho tantas, de longe...de perto
Tantas se foram, simplesmente foram
Outras, assustadas bloquearam
Virtuais ou carnais, não importam mais
A dor é igual, mal entendida

Ando tão sem saco pra escrever
Deve ser falta de inspiração
Pura conspiração de mim mesma
Querendo guardar coisas
Resolvi vir aqui dizer

Tão pisciana que sou, revoltei
Imagina só um peixe atrás do outro
Me sinto dentro dum ovo, nada pessoal
Sinto falta de ti e de mim
Amigos d’umbigo, juntei sim

Tentei de tudo nesse tempo fora
Escrevi, trabalhei, dormi
Minha razão tinha razão
Sou pura emoção
Comi um pacote de trakinas

Falta da mercadora
Furiosa comeu meu livro
Achei tudo ruim o que escrevi
Pura bestagem misturada com vodka
Não bloqueia o insano, faz bem pra alma

Lá eu de novo, misturando
Alhos com bugalhos
Falei que não tava certo
Meu eu me olha
E cobra, serpenteia

Atravessa a rua vazia
E atropela o curso do rio
Tanto tempo sem palavra
Que a frase se joga na letra
Que face oculta me inspira
Qual fase inculta me faz assim
Volto outro dia

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sábado, 4 de julho de 2009

AMOR ASSIM

(imagem: doufine)
Assim... amoroso, de mãos dadas
Como se nada fosse ventar
Como se nada fosse matar
Assim...formoso, de almas grudadas

Corpos encaixados e suados
Olho no olho, pele na pele
Mãos entrelaçadas no passeio
Com anseio de quero te ter

Sonho de alma, que acalma
Que conversa a noite inteira
Que timidamente pede pra fazer amor
E selvagemente o faz

Quero um amor assim
Aquele do aconchego
Que basta um beijo
Pra saber que existe

Que resiste e persiste
Embora temporais o tentem
As mãos continuam ligadas
E os olhos transcendendo

Compondo jardins
Plantando canções
Rimando olhares
Sonhando você
Bem assim..

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quinta-feira, 2 de julho de 2009

QUE SUFOCO

( imagem:Diego Rivera)
Sufoco ser eu
Achar meu eu
Buscar o eu
Sutil meu eu

Vulcão em erupção
Explosão temida
Retida, contida
Ser eu palpita

Habita entranhas
Esconde temores
Amorfa amores
Abafa rumores

Ser eu complica
Ser eu também explica
Descompassa a vida
Desgoverna a lava

Expele porcaria
Comprime razões
Expulsa demônios
E encontra a essência

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terça-feira, 30 de junho de 2009

UM SONHO DE RAINHA

Soledad Montoya, espanhola e linda. Sempre dona de um sorriso. Vestida num vestido vermelho e preto, cabelos longos, ondulados e doces. Era assim que se vestia Soledad Montoya.
Menina formosa, mulher misteriosa. Desde cedo assanhou rapazes. Desde cedo cobiçou mulheres. No vilarejo de ruas vazias e poeirentas, povoado de mexericos e homens bêbados, Soledad formou-se rapariga dona de invejáveis prazeres. Cresceu em meio ao porre e putaria de sobrenome. Vingou linda e selvagem criatura, cheirando a feno e dormindo celeiros.
Vestiu sempre vermelho e preto, combinando com o cabelo. Rodava saias e castanholas num bar cheio de mofos bêbados.
Foi assim que criou mágoa e veneno. Foi assim que perguntou o final daqueles pátios de infância, tão doces e ternos. Pátios brincados de castanholas com meninas iguais a ela. Onde estão aquelas crianças dos sonhos de Soledad ? Esconderam-se nos celeiros onde seus sonhos de menina estupraram na saudade. Ficaram misturados no feno que serviu de cama ao seu desalento. Só restou o mesmo rio de infância pra lavar seu desgosto de mulher vadia, que um dia sonhou em ser rainha.
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